terça-feira, 28 de abril de 2015

Do Bonfa

Eu nasci no Bom Fim e, na verdade, nunca deixei de estar perto desse bairro. 
Era no Edifício Tuparendi, na rua João Telles, que minha mãe morava quando começou a namorar meu pai, que por sua vez morava na rua Santo Antônio. Eles até conseguiam se ver pela janela. Eu vim a nascer, alguns anos depois, no apartamento da Santo Antônio e não no da João Telles. Dali, guardo apenas uma memória fotográfica da sala com o nosso sofá-cama, porque quando completei 3 anos de idade nos mudamos para o bairro Rio Branco, logo adiante. Mas, no Tuparendi, ainda estavam as quatro irmãs da minha mãe e todos os meus primos. Lembro dos antigos apartamentos e dos cachorros da família: o buldogue Pacato da tia Flávia, o dia em que fomos buscar o filhote de beagle Quintana com a Teresa, e aquele em que a poodle Pagu deu cria na área de serviço do apartamento da Ana. Lembro de jogar Can Can com as vizinhas sentadas no chão dos largos corredores do Tuparendi porque era geladinho no verão, e também das lâmpadas que apagavam sozinhas - momento no qual alguma das primas mais velhas automaticamente me dava a mão para que eu não ficasse com medo. Lembro da minha mãe me buscar na creche e fazer um happy hour com as minhas tias no barzinho que existiu alguma vez em frente ao Tuparendi, enquanto eu corria com meus primos em volta da mesa, na calçada... Lembro da Redenção em todas as épocas, inclusive quando tinha um aluguel de bicicletas ao lado do laguinho, e o meu pai me levava para passear na cadeirinha da bicicleta pelo parque. Lembro da Espaço Vídeo muito menor do que é hoje, quando os pôsteres da locadora me intrigavam porque eu ainda não sabia ler. Lembro de assistir o filme do Tarzan no cinema Baltimore, e que o sol quase nos cegava quando saíamos da sala escura. Lembro que gostava da feira de sábado na Vasco da Gama principalmente porque fechava a rua e nós podíamos andar de roller no asfalto. Lembro de tomar muito sorvete na Croncks, que tem o delicioso hábito de fechar tarde mesmo aos domingos. Lembro de quando abriu a Palavraria. Lembro de ir em festinhas na Hebraica e voltar caminhando ao amanhecer. Depois das aulas no Rosário, lembro de passar tardes na esquina da Sociedade Italiana com os amigos que andavam de skate na rua. Lembro do apartamento na Fernandes Vieira onde transei pela primeira vez, e pela segunda e terceira e... Lembro das festas da Casa de Cinema no Ocidente ano após ano. Durante a faculdade, lembro de inocentes suquinhos na Lancheria do Parque que terminaram em madrugadas no Bambus. Lembro das aulas de ioga, em frente à agência dos Correios (que hoje não está mais lá, porém mais de uma vez me serviu para enviar amor ao exterior). Lembro quando minha psicóloga trocou de consultório, e eu fiquei feliz porque dali podia ver as palmeiras da Osvaldo Aranha. Lembro do mendigo que costumava gritar sozinho no corredor de ônibus. Lembro de restaurantes vegetarianos, de judeus ortodoxos, de um leve cheiro de maconha pairando no ar e da UFRGS bem pertinho, marcando sua presença. Lembro de subir e descer essas lombas tantas vezes... É que, enquanto eu atravesso o Bom Fim, ele me atravessa também. Eu lembro até das gerações que não vivi nessas esquinas malditas.