terça-feira, 9 de maio de 2017

Fora da palavra / quando mais dentro aflora

O silêncio como gesto. Como sinal de que há algo que falta ser dito. Onde estarão essas palavras? Serão palavras já, ou ainda estão sendo gestadas?
É curioso como a raiva empurra as palavras pra fora, enquanto a tristeza tem por hábito prendê-las. A tristeza cala o que a raiva fala. É preciso ouvir a tristeza, ou pelo menos comunicar-se por seus gestos.


terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

“Aventureiro” se chamava o barco, ancorado em frente à casa do pescador. Tinha escolhido para o barco um nome que começava com A da mesma forma que batizara todos os seus filhos: Agenor, Adriana, Adalberto, Aline e Antônio.
Pois uma tarde, Antônio, o menorzinho, apoiando-se nos joelhos do pai, que fumava sentado na frente de casa, fitou o mar e perguntou:
- Pai, quando os barcos viram ou batem e quebram, eles morrem?
O pescador sabia que, na língua das crianças, o menino estava repleto de razão.
- Sim, meu filho.
- Mas, quando eles morrem, eles afundam... Então o fundo do mar é o céu dos barcos?
O pescador nunca tinha pensado nisso, mas logo se pôs a imaginar o barco tocando o fundo do oceano, solitário, restando alguns de seus pertences doravante sem função nenhuma, sendo pouco a pouco coberto por algas e fazendo amizade com os peixes por toda a eternidade. Nenhum barco mereceria o inferno, ponderou. O Aventureiro, que sempre esteve na superfície daquilo tudo, assim desbravaria finalmente a profundidade do mar, descobrindo que as águas podem ser bem mais tranqüilas do que ameaçavam com suas ondas e os temporais. Ficando à deriva, porém não mais dos ventos que o empurrariam para longe, e sim de toda vida marinha que viria a rodeá-lo.
- Sim, filho. O fundo do mar é o céu dos barcos.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

De tanto afogar as mágoas
um com o outro
acabaram por afundar
um no outro

domingo, 1 de janeiro de 2017

vagar
devagar
divagando

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Ele parece um cara sério. Mas, se fosse, me deixaria apreensiva – e não é assim que me sinto. “Seriedade” soa bem parecido com “serenidade”. Acho que é esse o olhar que ele tem, sereno, claro e transparente como as águas de bem longe daqui. E não é que sorria pouco, ou que lhe faltem motivos para sorrir, mas fato é que ele não desperdiça sorrisos o tempo todo. Então, quando a nossa conversa o faz sorrir, sinto que me ilumina por completo, como o sol que sempre nasce curiosamente inesperado após uma noite longa. Não, ele não me deixa apreensiva – seu tom grave é tão leve, seu jeito tão genuíno me tranqüiliza. Com a imponência discreta de uma montanha sagrada, revela o fogo que arde e flui em um gozo verdadeiramente vulcânico. Te vi montanha, te descobri vulcão. E a tua força tectônica mexeu comigo...

segunda-feira, 27 de junho de 2016

batom
no meu queixo?!
não me queixo.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Hoje eu adorei ter conjuntivite. Fui mandada embora do trabalho para não contagiar ninguém, e o dia frio estava tão ensolarado que eu não me perdoaria se não o aproveitasse. Corri para a Redenção, achei um cantinho para me sentar em meio às árvores, e essa tarde me recordava de outras tantas. De namorar no parque Germânia, de amigos inesquecíveis no Parc de la Ciutadella, de domingos em Montevidéu, do caloroso inverno de Puebla, de rir e chorar e não me importar com nada em Buenos Aires... Depois de pouco tempo entendi por que é que eu sentia toda essa intensidade de quem está viajando a passeio: porque meus olhos insistiam em guardar aquela tarde em sucessivas fotos mentais. Porque, com nada mais do que um livro e um chimarrão como companhia, dentro de mim eu estava completamente sol.

terça-feira, 7 de junho de 2016

não se fazem mais
saudosismos
como antigamente

domingo, 29 de maio de 2016

o sopro do vento
a percussão da chuva
o ritmo de domingo

quinta-feira, 21 de abril de 2016

e eu aqui, esperando
que a tristeza me largue
que um milagre me alegre