domingo, 6 de maio de 2018

Olhando assim de longe
os carros na ponte parecem ir devagar
os aviões decolam vagarosos
as nuvens mal saem do lugar
o sol sobe preguiçosamente
as revoadas de pássaros são lentas
o rio corre de mansinho
o resto nem se movimenta

o trem atropela
o nosso ritmo das manhãs
o trabalho não espera
a felicidade, sim.
o ser humano
é sempre ímpar
nunca será par

nunca será páreo
para outro ser humano
feito à sua imagem e semelhança

mas - quem sabe? -
para algum ser humano
afeito à sua imagem
e dessemelhanças

quarta-feira, 21 de março de 2018

Abismo

Sinto no peito um vazio imenso. Um vazio sufocante, com ânsia de ser preenchido por palavras bonitas, sentimentos profundos e certezas absolutas. Mas nada disso existe agora. Tenho só a tua ausência e a intensa agonia de quem duvida de tudo. Tenho ausências demais. O batimento acelerado do meu coração não me deixa dormir, mas é só o eco da vontade que já existiu um dia, e que hoje não sabe para onde vai. Sinto no peito um vazio imenso como a escuridão da noite, e não sei se o dia vai chegar. Nem mesmo as lágrimas brotam em meu corpo. A vida parece estéril. Preciso me lembrar de onde vinha o desejo de que eu esteja aqui. Às vezes já não sei a diferença entre estar dormindo ou acordada. Não sinto mais nada. Sou o eco de mim. Sinto no peito um imenso vazio.

sábado, 17 de março de 2018

Vou embora hoje. Embora hoje tenha vontade de ficar. Embora saiba que o dia de amanhã aqui poderia ser ainda melhor que o de hoje. Embora vá sentir saudades desse horizonte e de tudo que ele guarda. Embora saia com gana de voltar e com medo de não encontrar essa serenidade em nenhum outro refúgio meu. Embora tenha tentado ficar mais tempo aqui. Embora duvide dos motivos que me fazem voltar para casa por inércia. Hoje, vou embora.

Dia branco

Talvez seja preciso certa maturidade para aprender a amar os dias nublados. Não falo de quando há uma ou outra nuvem cobrindo o sol, mas de quando o céu está convictamente nublado, estático, cor de chumbo, como se as nuvens estivessem soldadas umas às outras, deixando a luz difusa em uma claridade aparentemente sutil mas que machuca os olhos quando saímos de dentro de casa. Talvez só quem tenha passado por uma sucessão de dias chuvosos e tempestades entenda a preciosidade dos dias nublados e a paz que eles me trazem, quando a brisa fresca não é vendaval nem o calor pesado nos tira a urgência de viver. Os dias nublados me dão licença para caminhar devagar, respirar fundo e não exigir muito de mim. Hoje mesmo estava nublado quando acordei, então saí andando por aí, ouvindo o silêncio e enchendo os olhos de mundo. Tudo o que eu preciso em um dia desses é uma sacada com uma vista que eu possa chamar de minha: que se torne rapidamente familiar e aconchegante. Um doce cairia bem, e a boa companhia pode ser a minha própria. E, quando o sol anunciar o seu retorno, é claro que meu peito vai se aquecer tanto e de tal forma que eu vou correr para a praia e mergulhar no mar imenso para festejar toda a cor e o brilho dos dias ensolarados! Mas continuarei sabendo que não há nada mais intenso do que aquele raio de sol que delicadamente resiste e escapa por entre as nuvens de chumbo, solitário como um louco, modificando toda a paisagem e o céu que paira sobre nós. Porque nada há de permanecer sempre igual.

sexta-feira, 16 de março de 2018

Navegar é preciso

rumo
diz o dicionário
é cada um dos 32 espaços em que se divide a rosa-dos-ventos
ou 
a direção que segue um navio

diferente daqueles cascos enferrujados
do outro lado do muro, no cais do porto
que já não se dirigem a lugar algum
eu
de repente, mudei de rumo

à margem do rio que segue seu curso 
vejo o amanhecer e os armazéns do cais
trilho meu caminho agora nos trilhos do trem
descarrilei

o sol nascendo
o trem partindo
eu partindo no trem
de coração partido
de coração, partindo
a Novo Hamburgo

Novo Hamburgo
um nome que carrega em si
novo rumo
um nome onde cabem também
roubo, ramo, ranho
uva, ombro, hora, ganho
mau agouro
mago, ouro
ogro, bravo, bom
unha, banho, norma, vôo
rabo, bronha, nora, avô
rango, morno, humor, bongô
muro, grua, bar, ruga
vago, órgão, rua 
garoou

Outubro de 2017.

sábado, 18 de novembro de 2017

Antônimos

intimidade
sem cumplicidade
é violência

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Decolar na tempestade

Sempre me emociona o instante em que o avião decola, após percorrer alguns quilômetros em crescente aceleração. Adoro a sensação de euforia por me desprender do chão para desbravar terras distantes. Tem algo de coragem, independência e imprevisível nisso que me fascina, me hipnotiza, provoca encanto e arrepio. Mas hoje foi diferente. Eu estava triste e a sensação foi de alívio. Só isso: alívio por sair de onde eu estava. Nunca tinha decolado da minha cidade assim, iluminada por suas luzes noturnas e raios de tempestade. Sentia medo, mas não era por causa disso.

Na última vez que viajei pro Rio de Janeiro, tu fez questão de me acompanhar ao aeroporto, não sei exatamente por quê. Mas adorei poder ficar mais um tempinho contigo. Naqueles dias, eu custava a sair dos teus braços... Naqueles dias, semanas, meses, que na minha memória têm cheiro de capim-limão e que me fazem lembrar com tanto carinho daquele apartamento na rua Santana que tu detestava, a gente andava (re)descobrindo um ao outro. Eu só me dei conta de que estava apaixonada quando desembarquei e comecei a contar sobre nós para todo mundo, e meus olhos brilhavam e meu coração se enchia de saudade e de repente era tu o meu maior motivo para querer voltar pra casa. Percebeu que já faz um ano isso? Um ano que embarcamos nessa aventura de conhecer melhor um ao outro e a nós mesmos, e de tentar melhorar juntos, mesmo quando separados; de amar com liberdade, com a única promessa de sermos verdadeiros. Faz um ano e, ainda hoje, me custa ficar longe dos teus braços.

Sou só eu, ou estamos passando por um momento de turbulência? Apertem os cintos, diz aquela voz. Estou indo novamente pro Rio, o mesmo Rio de janeiro, julho e novembro, mas desta vez tudo está muito nebuloso – lá fora e aqui dentro. Uma criança ao meu lado olha pela janela e diz, decepcionada, que não sabia que o céu era assim. Eu também não sabia que a vida adulta seria assim. Crescer dói – pensei em alertá-la. Eu só queria que alguém estivesse aqui para segurar a minha mão até a hora de pousar.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

meia-noite
meia lua
toda linda

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Dicionário

de·sa·ba·far
(verbo intransitivo)
Não mais abafar aquilo que pode me fazer desabar.