sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Dear Prudence

won't you come out to play?


quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Cores

um verão de aquarela
nas férias
do quadro-negro

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Em ti

Não quero mais sair da tua cabeça
Quero ficar na tua vida
Me ver nos teus olhos
Habitar os teus sonhos

Vou invadir a tua roupa
Desvendar teus caminhos
Conquistar tua pele
Ganhar tua boca

Vou ocupar tuas mãos
Morar nos teus braços
E esse território
Vou chamar de amor.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Sobre coragem

Ela invadiu a churrascaria, interrompeu nosso almoço e deu a luz sobre a mesa. Eu fiquei impressionada, nunca tinha visto coisa assim. Ela se debatia, não sei se de dor ou desespero, ou se sabia exatamente o que estava fazendo. Seu rosto inexpressivo só fazia crescer a minha dúvida. Ela não dizia uma palavra, mas não parava quieta.

Lembro do recém-nascido (um pouco nojento, é verdade), bem branquinho, se contorcendo sobre a toalha xadrez. Ainda inábil para esse mundo, e sabe-se lá até quando o será. Logo veio o segundo, e outro, e mais outro, quando vi já eram seis. Pouco distantes da mãe, não paravam de se mexer, em meio à tanta carne e gente indiferente.

Ela já não agüentava mais, e ainda havia outros por vir. Seus movimentos agitados tinham dado lugar à exaustão, e ela quase não se movia mais, silenciosa. E ninguém a ajudava. O sétimo começou a sair, mas ela não tinha mais forças, e ele nem saía nem decidia voltar. Nem podia. E ninguém os ajudava.

Saí de lá sem saber se ela tinha conseguido parir a sétima larva ou se morrera de cansaço. Mas aprendi a admirar as moscas. Tem que ser muito corajosa pra parir assim, sozinha.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Paixão

paixão é brincadeira
que a gente esquece
de não levar a sério

domingo, 6 de dezembro de 2009

Encuentros

buenos vientos te traen
dijo El Niño
a La Niña

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

En la feria de Tristán Narvaja...

Montevidéu, domingo, plátanos, céu azul. Uns postais, parafusos, maquiagem. Creme chinês, leque japonês, brinquedos made in Taiwan. Garrafas diversas, copos fora do conjunto. Cuia, bomba, térmica, mateira, murga tocando ao fundo. O quadro de um gaúcho tomando Coca-cola. Lápis de cor, controle remoto, uma lata de biscoitos suíços vazia. Livros, revistas, pimentões. Tábua de passar roupa, moedas antigas, prancha de surf e roupa de borracha. Montes de garfos, bonecas peladas, temperos variados. Rodinha de skate, rodinha de cadeira de rodinha. Facão, cone de abajur, celular. Negros, brancos, índios, turistas. “Pêras deliciosas” vendidas por alguém muito irônico. Brincos, grelhas, coelhos. Gravatas do meu avô, tamancos da minha avó. Uma Vespa. Eletrodomésticos antigos, massas caseiras, chá para emagrecer. Chaves que não abrem mais nada, cadeados sem chave. Cabides de plástico, óculos escuros, cadeirinhas para crianças. Carretel de linhas de todas as cores. CD, DVD, fita de vídeo. Botão, espelho, cadeira de praia. Pilhas, radinho à pilha, pilhas de roupas novas, usadas ou muito usadas.

Tudo se encontra na dadaísta feira de Tristán Narvaja.


Montevideo, setiembre de 2009.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

abrigam-se
sob os guarda-chuvas
cabeças-de-vento



Foto de Felipe Martini: Porto Alegre, 2009.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Noturno

Ainda estavam se habituando ao rosto um do outro quando faltou luz. Mas isso não os perturbou, foi como o convite a uma brincadeira, o qual nenhum dos dois cogitou recusar. Sentaram, um de frente para o outro, em duas poltronas antigas diante da janela. As noites nubladas são claras como as de lua cheia. Como uma fotografia, na penumbra iam pouco a pouco se revelando. Suas idéias, seus sonhos, seus segredos. Falavam tão pausadamente que os uivos do vento pareciam fazer parte da conversa. Uma garoa fina que ameaçava invadir a sala refrescava o recinto. O vinho tratava de aquecer os corpos.

A garrafa esvaziou-se nas duas taças, que satisfizeram as bocas, que se calaram. Ela se levantou, aproximou a boca morna da dele. Não usava nada por baixo do vestido – o que ele pôde perceber ao subir as mãos para além das suas coxas. Descobriu-a úmida, e nela mergulhou sem pressa, mas com vontade. Aquele desejo de quem guarda um bombom para comer mais tarde. Devoraram-se.

Poucas horas depois, estavam deitados no tapete, os corpos enlaçados, quando o sol invadiu o sono. Nela, mordidas no ombro. Nele, batom na nuca. Em ambos, profundas marcas no coração.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

...

telefone que não toca
quanto mais espero
mais me desespero